A bolsa velha significava tudo para mim. Eu o tive comprado alguns meses antes de partir para minha missão. Normalmente, não sou muito apegado a coisas, mas a bolsa foi uma símbola de sobrevivência para mim. Nos primeiros meses da minha missão, enquanto servia em Dakota do Sul (nas EUA), muitas sistres falaram sobre quantas bolsas elas já tinham que comprar porque as alças se rompiam. Por alguma razão, sempre afirmei que a minha bolsa não iria quebrar. Não sei porque eu sentia assim, mas acho que queria que minha bolsa durasse 18 meses da mesma maneira que eu precisava de ficar na minha missão.
A primeira parte da minha missão foi muito difícil. Passei por experiências que incluíam a perda de uma avó, depressão severa, várias visitas ao hospital, doenças físicas e uma companheira que quase morreu. Depois de sete meses na missão, fui enviado ao Brasil, onde as coisas continuaram sendo difíceis para mim.
Mas apesar de tudo, minha bolsa permaneceu intacta. A cor marrom-clara tinha desbotado para um branco quase amarelo em algumas partes, mas se sustentava. Num dia da primavera no Brasil, com cerca de 14 meses na missão, eu estava subindo uma das colinas poeirentas ao lado de um grande campo em uma área mais rural da pequena cidade. Sempre que eu e a minha companheira boliviana andávamos por essa estrada, viamos aviões sobrevoando, provavelmente saindo de São Paulo que a apenas 70 km ao sul de nós. Sempre que uma avion voava acima, eu levantava meus dedos no céu para indicar quantos meses me restavam na missão. 6, 5, 4...
Minha companheira, a Sister Alarcon, nunca aprovou isso. Ela já afirmava seu desejo de servir uma missão para sempre e nunca voltar para casa. Então, acho que meu desejo de sair decepcionado-la. Ela entendeu um pouco sobre os meus traumas do passado, mas acho que isso a fez se sentir triste. Enfim, acho que foi um daqueles dias, depois de ver um avião, de repente ouvi um estalo. Num instante, minha bolsa caiu no chão.
Eu olhei em choque quando percebi o que tinha acabado de acontecer. Minha pequena bolsa fiel, que eu tinha afirmada com tanta confiança nunca iria quebrar até voltar para casa, tinha feito exatamente isso. Quebrava. Caía no chão. Não durava até ao fim da missão. Numa maneira metafórica, eu me senti como se estivesse me vendo quebrar também. Parecia que, sem essa bolsa, eu também não conseguiria acabar a missão.
Então. Sou dramática quando estressada e, naquele momento, eu caí no chão e lamentava a perda num humor que estava entre raiva, tristeza e desespero. A minha pobre companheira só tinha que me observar. Claro, não durou muito. Eu sabia que não tinha nada que eu pudesse fazer sobre isso. Então, eu apenas carregava a bolsa nos braços pelo resto do dia e vocalizei frequentamente como era irritante ter que comprar outra. Por que a bolsa não podia sobreviver por mais quatro meses?
Naquela noite, depois da sessão de planejamento, a minha companheira desapareceu. Nós só tínhamos um apartamento de um quarto so, então ela devia ter que escapada enquanto eu estava no banheiro ou conversando na cozinha com as outras duas sistres. Surpresa por não encontrá-la em um dos dois quartos, saí para a nossa pequena varanda onde estava um sofá velho e sujo. Ali, curvado sobre algo, estava minha companheira. Ela me disse para ir embora por que ela estava trabalhando em alguma coisa. Eu a pressionei para me mostrar, mas ela era desafiadora.
Uma hora depois, ela me apresentou uma bolsa perfeitamente consertada. Ela tinha tirado os dois anéis e costurou cuidadosamente as alças diretamente á bolsa. Eu olhei para a bolsa em choque. Com o que eu acredito que foi a perfeita compreensão do meu estado mental, a Sister Alarcon disse algo como:
"Agora, vai durar o resto de sua missão."
E assim foi. Não precisei de comprar outra bolsa até chegar em casa. E mesmo assim, eu salvei aqueles pequenos anéis e continuo carregando-os comigo até hoje. Porque minha bolsa não era a única coisa que ela havia consertado naquela noite. Em nossas duas transferências juntos, ela conseguiu me salvar também.
Sempre que penso nessa experiência, a palavra que vem à mente é compaixão. Isso pode ser definido como não apenas para mostrar simpatia ou misericórdia, mas também para "sofrer com" os outros. Em várias ocasiões, as escrituras fazem referência à compaixão do Salvador. Ao permanecer entre nós e a lei da justiça (Mosias 15: 9), ao falar sobre a motivação do Bom Samaritano (Lucas 10:33), ao ver as multidões buscando cura e ajuda (Mateus 9:36), e quando Ele estava entre os nefitas para curar seus doentes depois que eles pedissem, em lágrimas, que ele “permanecesse um pouco mais” (3 Néfi 17: 6-7).
Uma coisa que eu gosto desse princípio é que a compaixão é separada do julgamento. No caso do Bom Samaritano, pode até incluir misericórdia e empatia por inimigos ou pessoas com quem discordamos. Aplica-se independentemente das semelhanças ou diferenças nas situações ou nas opiniões de alguém. É uma expressão de caridade - ou o puro amor de Cristo. Adoro esta citação do Presidente Monson:
Não podemos amar verdadeiramente a Deus se não amarmos nossos companheiros de viagem nesta jornada da mortalidade...Na verdade, o amor é a própria essência do evangelho, e Jesus Cristo é nosso Exemplo. Sua vida foi um legado de amor. Ele curou os enfermos, ergueu os debilitados e salvou os pecadores. No final, a multidão enraivecida tirou-Lhe a vida. Mas da colina do Gólgota ressoam estas palavras: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”— a maior expressão de compaixão e amor proferida na mortalidade.
Vivemos num mundo cheio de violência, doença, deslealdade, abuso, raiva, orgulho, e desonestidade. Mas no meio de toda a tristeza e escuridão, eu acho coragem e esperança no fato de que também existem tantas pessoas fazendo o bem e dando do seu tempo e energia para amar os outros. Como seres humanos, temos um poder e um privilégio único de agir como o Salvador, de ser suas mãos, e ajudar e servir as pessoas ao nosso redor. Mas isso exige que olhemos além de nossas diferenças para amar como o Salvador faria. Nossas contribuições podem parecer pequenas, mas esses pequenos atos de compaixão e amor podem mudar vidas - incluindo a nossa.
Assim como minha companheira, cujo pequeno ato de misericórdia ajudou me a curar, temos a capacidade de alcançar, amar, servir e abençoar a vida das pessoas ao nosso redor. Em nosso mundo complicado de hoje, isso pode exigir um pouco de criatividade. Mas tomo coragem nos exemplos das pessoas e comunidades que procuram ativamente fazer o bem. Espero poder seguir o exemplo deles, seguindo à diretiva do Salvador:
“Portanto, sê fiel...socorre os fracos, ergue as mãos que pendem e fortalece os joelhos enfraquecidos.”
No final, foi o ato de compaixão, não aquela bolsa velha, que me deu forças para seguir em frente. Foi o amor da minha companheira, não o ato específico dela, que acalmou minha ansiedade e me ajudou a sentir paz. E é a compaixão do Salvador, demonstrada por meio de seu sacrifício expiatório, que fornece esperança e verdadeira cura a todos.
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