Quando eu era mais jovem, o meu pai sempre afirmava que
deveríamos levar tudo o que um membro do Quórum dos Setenta dissesse "com
um grão de sal" – quero dizer, a gente deve ouvir os seus discoursos
cautelosamente, com
oracão e um pouco de
ceticismo. Apliquei isso com muita liberdade em minha vida (talvez demais). Eu
lembro um momento específico da minha missão. Um membro dos Setenta veio a
visitar. Ele queria celebrar a idéia do batismo, realizando uma espécie de
festa batismal no quintal do Presidente da Estaca - um bilionário que construiu
sua casa mais ou menos para modelar o Templo da Guatemala.
Nas semanas seguintes, todos os missionários foram
incentivados a convidar (e a forçar, se for possível) seus pesquisadores a serem
batizados na data muito específica escolhida pelo membro do Setenta e o Presidente
da Estaca, para que pudéssemos convidar muitas pessoas frequentar o evento - o
que me pareceu um “espetáculo de batismos.” Se eu estivesse escrevendo um
artigo de jornal, seria o que eu teria intitulado.
No entanto, eu pessoalmente acreditava que pressionar
meus investigadores a fazer qualquer coisa que envolvesse convênios era uma
péssima idéia. Também não gostei da ideia de um evento sagrado se tornar uma
exposição. Por isso, teimosamente disse a meu companheiro que não
participaríamos. Também liguei para meu Presidente de Missão e informei meus
pensamentos, aos quais ele respondeu algo como:
“Eu meia concordo com você, Sister. Mas ele é um membro
dos Setenta. Eu não posso fazer outra coisa.”
Minha pobre companheira, que provavelmente queria apoiar
os outros missionários, foi gentil o suficiente para acompanhar meu plano de
boicotar a cerimônia. E embora eu não culpe ninguém por participar, sempre eu sentia
um orgulho muito forte na minha decisão de evitá-lo.
Ao longo dos anos, tive várias experiências semelhantes
nas quais tive que aceitar que discordo muitas vezes de decisões e comentários
feitos por pessoas em posições de liderança na Igreja. É claro que, ao mesmo
tempo, tenho fé nas doutrinas e princípios do Evangelho e declararei com confiança
a minha crença de que Joseph Smith viu o Pai Celestial e Jesus Cristo no Bosque
Sagrado e que ele traduziu o Livro de Mórmon pelo poder de Deus.
Então, o que pensar do resto?
Sou uma pessoa bastante filosófica por natureza - quase
obcecada em buscar e descobrir a verdade. Naturalmente, então, minhas
experiências me forçaram a refletir sobre o equilíbrio entre sustentar e seguir
os líderes da Igreja e reconhecer que ninguém tem o monopólio da verdade - nem
mesmo o Profeta - e, é claro, ninguém é perfeito.
Em abril de 2018, a Conferência Geral, o Presidente
Nelson declarou:
“Nos próximos dias, não será possível sobreviver
espiritualmente sem a orientação, direção, consolo e constante influência do
Espírito Santo.”
Eu amei essa citação por várias razões, uma delas sendo
que parecia uma das maiores maneiras de discernir a verdade numa igreja que
depende de pessoas imperfeitas. Pensei que, se pudesse aprimorar e aperfeiçoar
meu próprio canal para o céu - minha capacidade pessoal de reconhecer e receber
revelação pessoal, seria mais fácil discernir verdade e erro onde quer que eles
se apresentassem.
E às vezes, talvez mais do que gostaríamos, isso acontece
na igreja mesmo. Isso acontece nas reuniões da igreja em todos os lugares. Não
conheço ninguém que não tenha participado de uma Reunião de Jejum e Testemunho
e tenha se encolhido um pouco por causa das palavras o que estava sendo dito.
Eu me sinto assim com frequência. Lições da escola dominical. Treinamento na
Conferência da Estaca. E sim, durante as sessões da Conferência Geral.
Bom. Estou bem ciente de que há muita coisa que não sei.
Mas não acho que exista algo incomum, assustador, ou até perigoso em
reconhecer, admitir e aceitar que, às vezes, o que é dito por alguém num posição
de liderança na Igreja simplesmente não é verdade. Quando isso acontece, eu tomo
uma nota mental para orar sobre isso mais tarde (se ainda não o fiz) e depois
seguo em frente e ouço o que mais eles têm a dizer. Eu mentiria se fingisse que
às vezes não ignoro totalmente o que eles disseram.
No entanto, uma das coisas que aprendi é que o que eu ouço
e o que os outros ouvem de uma mensagem específica as vezes são diferentes. Uma
palestra que eu ignoro ou não gosto pode ter tido um grande significado para
outra pessoa. Isso me fez perceber a necessidade de estender uma compaixão e
empatia de mente aberta, mesmo para as pessoas com as quais eu discordo
inicialmente. É possível que a mensagem deles não tenha sido para mim. É
possível que eles tenham cometido um erro. E é possível que eu simplesmente não
tenha entendido ou que eu estava realmente errado. Isso com certeza aconteceu
antes.
De qualquer maneira, eu percebi a importancia de ouvir
com ouvidos espirituais e ver até líderes como filhos de Deus tentando seguir o
caminho certo da mesma forma que eu. No final, somos iguais aos olhos de Deus -
especificamente em termos de nossa necessidade equivalente de confiar nEle para
a salvação. Somos todos imperfeitos.
Então, qual é o propósito da liderança da Igreja? Por que
somos instruídos a seguir o Profeta, sabendo que ele é imperfeito?
Este não é o local para um longo resumo de meus
pensamentos sobre hierarquia (talvez mais tarde) ou para uma explicação
exaustiva da estrutura organizacional da Igreja, mas tentarei fornecer alguns
pensamentos relacionados à revelação e doutrina.
Primeiro: não acho que o Pai Celestial espera que obedeçamos
cegamente. Com certeza, nem sempre teremos um conhecimento perfeito...essa é a
fé. Mas acho que nossa obrigação, em termos de obediência, tem menos a ver com
a aceitação inquestionável de cada palavra dita do púlpito e mais a ver com
nosso desejo consistente de conhecer e fazer a vontade de Deus. Se nosso foco
estiver em como amar mais a Deus e servi-Lo melhor, nos aproximaremos dele.
Então, depois disso, será mais facíl acharmos mensagens verdadeiras em todas as
discouros bem-intencionadas. A questão é que, se a obediência realmente é a
primeira lei do Céu, acho que isso tem mais a ver com nosso relacionamento
pessoal com nossos Pais Celestiais (e com nosso amor por eles) e menos com o
que um líder da Igreja disse. A boa notícia é que esses geralmente se
sobrepõem.
Segundo: pessoalmente, não acho que o Senhor revele sua
vontade à Igreja através das palavras de um homem atrás do púlpito. Até
declarações da Igreja, como a visão do Presidente Joseph F. Smith sobre o Mundo
Espiritual, foram ratificadas pela Primeira Presidência e Quórum dos Doze Apóstolos
antes da publicação. As decisões sempre devem ser unânimes. O que quero dizer
com isso é que, quando o Senhor tem uma mensagem para toda a Igreja, parece que
a revela por meio do Profeta, que a confirma com a Primeira Presidência e os
Doze, e depois é entregue à Igreja, que Da mesma forma, ore e ratifique essa
decisão por suas próprias vidas. Esse é o padrão. E isso não acontece com tanta
frequência. Pelo menos não em comparação com o número de declarações feitas que
não se encaixam nesse padrão.
Além disso, acho que podemos discordar, duvidar,
discutir, ser fiéis, e ainda esperar pacientemente no Senhor e respeitar os
chamados dados na igreja. Podemos continuar a buscar revelação pessoal sobre as
perguntas que temos e também expressar nossas preocupações. A arrogância é o
inimigo. Mansidão e caridade são nossos amigos. Se meu motivo é a determinação
de amar e servir a Deus, Ele me ensinará como agir, o que é verdade e o que
fazer.
Acho que nossa salvação depende muito mais do amor que
mostramos a Deus e ao próximo do que a todas as tradições, políticas ou cultura
da Igreja.
Então, concluirei com uma declaração simples e direta,
para que a minha opinião esteja clara:
As Autoridades Gerais não são perfeitas. Os discoursos
dados na Conferência Geral não são cânones doutrinários. Você não tem que
concordar com tudo. Se queremos saber o que é verdadeiro e aprender a vontade
de Deus, podemos pedir a Ele. No final, receber e reconhecer revelações
pessoais do Senhor é a chave para a verdade. É o nosso relacionamento com
nossos Pais Celestiais e nosso amor por Eles que mais importa.
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